O Lagarto descansava à sombra de uma grande rocha, protegendo-se do sol do deserto. À Cobra aproximou-se, procurando também por um pouco de sombra para abrigar-se e repousar. A Cobra observou o Lagarto durante algum tempo, intrigada com os movimentos rápidos de seus globos oculares por trás de suas pesadas pálpebras cerradas, até que sibilou para chamar sua atenção. O Lagarto descerrou lentamente seus olhos sonhadores e contemplou a Cobra.

- Você me assustou, Cobra, o que você quer comigo? - perguntou o Lagarto.

À Cobra cuspiu então sua resposta com sua língua forquilhada:

- Lagarto, você sempre consegue a melhor sombra para protegê-lo do calor do dia. Essa é a única pedra grande em muitos quilômetros, por que você não compartilha sua sombra comigo?

O Lagarto refletiu durante um momento, concordando em seguida:

- Cobra, você pode dividir esta sombra comigo, desde que vá para o outro lado da pedra e prometa não me interromper. À Cobra, começando a ficar aborrecida, silvou:

- Como eu poderia incomodá-lo, se tudo o que você está fazendo é dormir?

Ao que o Lagarto retrucou desdenhosamente:

- Como você é tola, Cobra, eu não estou dormindo, eu estou sonhando!

À Cobra quis saber a diferença entre as duas ações e então o Lagarto esclareceu:

- Sonhar é ir para o futuro. Eu vou para onde reside o futuro. Veja bem, é por isso que eu tenho certeza de que você não irá me devorar hoje. Eu sonhei com você e sei que sua barriga está cheia de ratos.

Abismada, a Cobra redargüiu:

- E verdade, Lagarto, você esta certo. E eu que me perguntava por que razão você havia concordado em dividir seu refúgio comigo… Sorrindo para si mesmo, o Lagarto disse:

- Cobra, você está procurando por uma sombra e eu estou procurando pela escuridão, pois os sonhos moram na escuridão.

"Homens…. Nós não podemos viver com eles. Você não pode matá-los e enterra-los no mato.

- Não sei o que fazer. Eu não tenho ideia do que fazer.

Bem, eu acho que agora é o momento da noite escura e tempestuosa. Vê isso?

- O trabalhador da construção civil do Village People?

Não, não. Boa forma de chama-lo.

- É você?

Eu gostaria. Não, seu nome era Marshall. Bem, sabe, talvez sejamos semelhantes. Acho que todo mundo se parecia naquele tempo. Marshall era perfeito. Em todos os sentidos,menos um.

-Em qual não era?

Não importa, por que ninguém é perfeito. Olha. Nós não estávamos satisfeitos um com o outro. Imaginei que havia milhares de homens lá fora. E não tratei de fazer que funcionasse. Deixei-o ir. Então eu fui à procura e encontrei um monte de homens. Mas eu nunca encontrei a perfeição. Porque, claro, não existe. E na estrada, perdi Marshall. Parece muito Joan Crawford.

-O que você acha que devo fazer?

Não faça o que acha que deve fazer. Faça o que sabe que deve fazer. Só não espere. Porque você não pode.

-Obrigado…Obrigado.”

                                                                            Xander
and Ernie